Um estudo publicado na última terça-feira, dia 12, na revista científica JAMA Network Open chamou atenção da comunidade médica depois de mostrar um crescimento considerável nas prescrições de ivermectina nos Estados Unidos. O aumento aconteceu logo após declarações do ator Mel Gibson, que no começo do ano passado afirmou publicamente que três amigos dele teriam conseguido se recuperar de cânceres avançados usando o medicamento.
A pesquisa foi feita por cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles e analisou informações de mais de 68 milhões de pacientes com idades entre 18 e 90 anos. Os dados vieram de atendimentos ambulatoriais e também de serviços de emergência espalhados pelos Estados Unidos. O foco principal do levantamento foi comparar o número de prescrições da combinação ivermectina com benzimidazol entre janeiro e julho de 2025, em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo os pesquisadores, o crescimento foi bem acima do esperado. Em números gerais, as prescrições praticamente dobraram depois que as falas do ator repercutiram nas redes sociais, programas de TV e até em podcasts bastante populares por lá. Entre pacientes diagnosticados com câncer, o avanço foi ainda maior, passando de duas vezes e meia os registros anteriores.
Mesmo com esse aumento todo, os autores do estudo deixaram claro que ainda não existe comprovação científica sólida mostrando que ivermectina ou medicamentos benzimidazólicos funcionem de forma segura e eficaz contra o câncer em humanos. Ainda assim, o artigo lembra que algumas pesquisas em laboratório e testes feitos em animais chegaram a mostrar sinais de atividade anticancerígena dessas substâncias. Só que isso, sozinho, não significa que o tratamento realmente funcione em pessoas.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autoriza a ivermectina apenas para casos de infecções causadas por parasitas. Já o fenbendazol, outro remédio citado em discussões recentes na internet, é destinado exclusivamente para uso veterinário. Mesmo assim, vídeos e relatos sobre supostos “tratamentos alternativos” continuam circulando forte nas redes, principalmente em plataformas de vídeos curtos.
A oncologista clínica Clarissa Baldotto, que também preside a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, comentou que resultados positivos em laboratório representam apenas uma etapa muito inicial das pesquisas científicas. Segundo ela, isso está longe de garantir sucesso em seres humanos.
“Muitas substâncias parecem promissoras no laboratório, mas acabam não funcionando quando chegam aos estudos clínicos”, explicou a especialista. Ela ainda destacou que somente uma pequena parcela das moléculas estudadas na fase pré-clínica realmente chega a ser testada em pacientes.
Outro ponto importante é que o estudo americano foi observacional. Ou seja, os pesquisadores apenas acompanharam o aumento das prescrições médicas. Eles não conseguiram confirmar se os pacientes realmente usaram os medicamentos ou quais resultados tiveram depois disso. Então, não dá pra afirmar que houve relação direta entre as declarações de Mel Gibson e o comportamento dos pacientes, apesar da coincidência temporal ter chamado atenção.
Toda essa discussão acabou lembrando novamente a polêmica da ivermectina durante a pandemia de COVID-19. Naquele período, o remédio virou tema de debates intensos no Brasil e em outros países. Parte da população, junto de alguns médicos e figuras políticas, defendia o chamado “tratamento precoce”, argumentando que medicamentos como ivermectina e hidroxicloroquina poderiam ajudar no combate ao vírus.
Do outro lado, entidades científicas e organizações internacionais afirmavam que faltavam evidências robustas comprovando benefício real desses medicamentos contra a Covid. O assunto dividiu opiniões, virou pauta política e dominou discussões em redes sociais durante meses. Até hoje, inclusive, muita gente ainda relembra aquele período como um dos mais tensos da área da saúde recente.
Agora, anos depois da pandemia, a ivermectina volta ao centro de uma nova controvérsia, dessa vez envolvendo possíveis tratamentos contra o câncer. Especialistas seguem alertando que esperança e relatos pessoais não substituem testes clínicos rigorosos, principalmente em doenças graves onde qualquer decisão errada pode trazer riscos sérios aos pacientes.