O clima ficou pesado nos bastidores do Supremo Tribunal Federal nos últimos dias. O ministro André Mendonça teria protagonizado discussões consideradas duras com a defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro durante as tratativas da delação premiada envolvendo o escândalo do Banco Master. A informação foi divulgada pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo.
Segundo a publicação, Mendonça não gostou nada do material apresentado pela defesa do empresário nesta quarta-feira (6). Os anexos entregues para a Polícia Federal e também para a Procuradoria-Geral da República teriam sido considerados fracos diante de tudo o que a PF já conseguiu descobrir durante meses de investigação. Nos corredores de Brasília o comentário é que o ministro esperava algo muito mais “explosivo”, principalmente em relação a políticos influentes que aparecem ligados ao caso.
Um dos pontos que mais irritaram integrantes das investigações envolve justamente a falta de detalhes sobre a relação entre Vorcaro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A expectativa era de que o ex-banqueiro explicasse melhor como funcionavam os contatos políticos e financeiros que cercavam o Banco Master. Mas, até agora, isso não aconteceu do jeito que os investigadores imaginavam.
Mensagens encontradas pela Polícia Federal em celulares apreendidos mostram que Vorcaro teria participado de encontros com Alcolumbre na residência oficial do Senado. Parte dessas conversas ocorreu com a presença da então companheira dele, Marta Graeff. Paralelo a isso, um detalhe chamou bastante atenção: a Amprev, órgão de previdência do Amapá, aplicou cerca de R$ 400 milhões em papéis de alto risco emitidos pelo Banco Master.
O órgão era comandado por Jocildo Silva Lemos, alvo de operação da PF em fevereiro deste ano e apontado nos bastidores como aliado político de Alcolumbre. É justamente essa conexão que vem deixando investigadores em alerta. O caso ganhou peso dentro da investigação porque mistura suspeitas de fraude financeira, influência política e movimentações consideradas suspeitas dentro do sistema financeiro.
Nos bastidores do STF, já existe uma avaliação de que a delação pode até não ser homologada se continuar nesse formato. De acordo com a reportagem, autoridades entendem que Vorcaro ainda não apresentou fatos realmente inéditos capazes de ajudar na recuperação de dinheiro desviado ou ampliar o alcance das investigações. E sem isso, dificilmente haverá qualquer chance de perdão judicial.
Caso André Mendonça decida rejeitar o acordo, a defesa do ex-banqueiro ainda pode recorrer à Segunda Turma do Supremo. Existe inclusive a tentativa de buscar liberdade para Vorcaro, que segue enfrentando problemas sérios com a Justiça. Até o momento, nem o ministro nem os advogados do empresário quiseram comentar oficialmente o assunto.
Os documentos entregues na delação foram separados por episódios diferentes, cada um abordando supostas irregularidades específicas. Os anexos incluem relatos de possíveis crimes, nomes de envolvidos e até indicação de provas que poderiam aparecer futuramente caso as negociações avancem de verdade.
O nome de Daniel Vorcaro virou assunto nacional depois das operações da Polícia Federal envolvendo o Banco Master. Inicialmente, pessoas próximas afirmavam que ele não pretendia citar ministros do STF em seus depoimentos. Depois o discurso mudou completamente. Advogados passaram a dizer que o empresário “não pouparia ninguém”, frase que acabou acelerando as negociações da colaboração premiada.
Atualmente, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli aparecem mencionados em mensagens encontradas nos celulares apreendidos pela PF. Ambos negam qualquer tipo de irregularidade.
Vorcaro presta depoimentos quase diariamente na sede da Polícia Federal em Brasília. Ele foi preso pela primeira vez em novembro, no aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar para fora do Brasil. A Polícia Federal sustenta que havia risco de fuga. Já a defesa alegou que a viagem era apenas uma tentativa de encontrar investidores interessados na compra do Banco Master.
Depois de conseguir liberdade alguns dias mais tarde, o ex-banqueiro acabou preso novamente em março, durante outra fase da Operação Compliance Zero. A ação também atingiu servidores ligados ao Banco Central e ampliou ainda mais o tamanho do escândalo.
Outro nome que tenta fechar acordo de delação é o de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Preso nas mesmas investigações, ele trocou recentemente sua equipe de advogados na tentativa de avançar nas negociações com as autoridades. Em Brasília, muita gente acredita que os próximos depoimentos ainda podem provocar novos desdobramentos politicos e aumentar a pressão dentro do STF.