Envelhecimento, tecnologia e exclusão: País envelhece e finge que não vê

Envelhecimento da População Brasileira: Uma Realidade Ignorada

É bem doloroso perceber que os nossos pais estão envelhecendo. É como se tivesse uma dor invisível que insiste em nos acompanhar. Não falo apenas da idade em si, mas da maneira como tentamos ignorar os sinais do tempo que marcam nossos velhos, aqueles que tanto nos ensinaram sobre a vida, a andar, a lidar com as dificuldades que nos cercam. A realidade é que, com a aceleração da revolução tecnológica, esse processo se intensifica. A mudança que vivemos hoje é muito mais rápida e radical do que a transição que aconteceu quando passamos da máquina de datilografia para o computador. Mas os sintomas dessa mudança são os mesmos de sempre: a repetição de palavras, histórias do passado que parecem não ter fim, e uma nostalgia que remete a um tempo em que a datilografia era a norma.

E não se trata apenas da energia que parece ter diminuído. Também é visível a dificuldade com tarefas simples do dia a dia, como uma pausa maior para responder perguntas que, antes, eram respondidas sem pensar. Isso é algo que quem convive diariamente com pais idosos muitas vezes não nota. Eles vão se tornando mais lentos, e isso é algo que devemos aprender a aceitar, embora seja difícil.

O Envelhecimento da População no Brasil

A frase que resume tudo isso é: “o Brasil está envelhecendo e não se enxerga”. Essa é uma realidade alarmante. Em 2026, estima-se que já teremos mais de 55 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Isso representa cerca de 25,6% da população. E, se olharmos para o futuro, em 2070, seremos 75,3 milhões de idosos, o que corresponderá a 37,8% de um país que, por outro lado, estará encolhendo. O pico populacional, que acontecerá em 2041, nos mostrará um total de 220,4 milhões de habitantes. Depois disso, a tendência é de diminuição, mas a população idosa continuará a crescer.

Números Alarmantes

  • Em 2010, o índice de envelhecimento era de 44,8.
  • Em 2022, esse número saltou para 80,0, ou seja, temos 80 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos.
  • No Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, já temos mais idosos com 60 anos ou mais do que crianças.

Esses números são alarmantes porque revelam um futuro que já está à porta e para o qual não nos preparamos. Não há políticas públicas adequadas de inclusão para essa população crescente. Na verdade, os avanços tecnológicos que tanto admiramos não consideram aqueles que trabalharam enquanto essa tecnologia se desenvolvia.

Desafios do Envelhecimento

A realidade é que, em breve, a maior parte da população adulta não será mais composta por jovens. Nem o governo, nem a sociedade parecem ter um plano real para lidar com isso. Enquanto envelhecemos, as novas tecnologias ocupam o espaço das pessoas, exigindo uma qualificação cada vez maior para operá-las. Isso cria uma divisão: aqueles que podem pagar por essa qualificação terão autonomia, enquanto os que não podem, dependerão de alguém. E essa dependência se torna cada vez mais complexa, pois a taxa de fecundidade está diminuindo, como no Nordeste, onde, em 2022, foi de apenas 1,57 filho por mulher.

Desigualdade e Exclusão

Os maiores problemas do envelhecimento no Brasil têm CEP, cor e classe. A emigração de jovens acelera o envelhecimento no Nordeste, que terá, em 2070, quase 40% da população com 60 anos ou mais. Esses idosos vivem nas periferias, sem aposentadoria digna, sem transporte adaptado e sem acesso a cuidados de saúde adequados. Tornam-se reféns de aplicativos de entrega, operados por jovens que correm para levar remédios e comida, uma realidade que está se tornando cada vez mais comum.

É uma geração jovem, muitas vezes precarizada, que cuida de outra geração ainda mais vulnerável. E o que mais preocupa é que, em um ano eleitoral como o atual, a pauta do envelhecimento e da exclusão digital quase não é levantada. Os políticos parecem mais preocupados com disputas ideológicas do que com as realidades que enfrentamos. Afinal, que país estamos construindo, e para quem? Se o futuro já começou e, na verdade, já está envelhecido.

Reflexões Finais

Neste ano eleitoral, é hora de parar e refletir sobre o que queremos para o presente. Devemos questionar o que foi feito por aqueles que foram eleitos há anos. O futuro não é mais uma promessa; ele já chegou e está velho. Precisamos de ação agora, não em um futuro incerto, mas no presente que já está à nossa porta.



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