Michelle reage com indignação após apresentação sobre evangélicos enlatados na Sapucaí

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou ao centro do debate político depois de criticar, mais uma vez, um desfile de Carnaval que acabou misturando samba, religião e política. O alvo da vez foi a escola de samba Acadêmicos de Niterói, que levou para o Sambódromo, neste domingo (15), uma homenagem ao presidente Lula (PT). Mas o que realmente gerou revolta não foi exatamente a homenagem em si, e sim uma ala específica que retratou evangélicos dentro de uma “lata de conserva”.

Cristã assumida e bastante ativa nas redes sociais, Michelle não deixou barato. Na segunda-feira (16), ela publicou uma sequência de stories no Instagram dizendo que a fé cristã foi colocada em situação de escárnio. Segundo ela, houve uma espécie de zombaria disfarçada de manifestação cultural. E foi além: classificou o episódio como “cultura travestida de politicagem”.

Nas palavras da ex-primeira-dama, o Brasil é um país laico, mas isso não significa que a religião possa ser alvo de humilhação pública. “Dizem que o país é laico, mas laicidade não autoriza zombaria, nem humilhação”, escreveu. A fala rapidamente repercutiu entre apoiadores e críticos, reacendendo aquela velha discussão que parece nunca ter fim: até onde vai a liberdade artística e onde começa o desrespeito religioso?

Em outro trecho da publicação, Michelle levantou um questionamento que, para seus seguidores, soou como provocação direta. “O que foi apresentado era conhecido, foi permitido e feriu milhões de brasileiros. Já imaginou se fosse ao contrário?”, escreveu, numa referência indireta ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A frase deixou implícito que, se a sátira tivesse como alvo outro grupo ou outra figura política, talvez a reação institucional fosse diferente.

A ala que causou toda essa polêmica se chamava “Neoconservadores em conserva”. O nome já indicava o tom de ironia. Os integrantes desfilavam com fantasias em formato de lata, numa representação satírica dos chamados neoconservadores. O número da ala, 22 — o mesmo usado pelo Partido Liberal nas urnas — também foi visto como uma provocação. Difícil dizer que foi coincidência.

Segundo a própria escola Acadêmicos de Niterói, a fantasia fazia uma crítica a setores que defendem pautas como privatizações e mudanças nas leis trabalhistas, além da defesa do modelo de família tradicional, descrito como formado apenas por homem, mulher e filhos. A lata de conserva, de acordo com a explicação da agremiação, simbolizaria ideias “engessadas”, fechadas em si mesmas.

Michelle, porém, não viu graça nenhuma. Em tom religioso, afirmou que Deus permite que cada um revele o que carrega no coração e citou a passagem bíblica sobre separar o joio do trigo. Para muitos evangélicos, a apresentação ultrapassou o limite da crítica política e atingiu diretamente a fé.

No fim da publicação, a ex-primeira-dama pediu que a Frente Parlamentar Evangélica se manifeste e repudie o que chamou de escárnio. Até o fechamento desta matéria, parlamentares ligados ao grupo ainda avaliavam uma possível nota oficial.

O episódio acontece num momento em que o país já vive um clima de tensão política constante. Em tempos de redes sociais aceleradas, qualquer imagem vira munição. E Carnaval, que sempre foi palco de crítica social, acaba entrando no meio dessa disputa simbólica.

No meio disso tudo, fica a pergunta que muita gente anda fazendo nos comentários: foi sátira política legítima ou exagero desnecessário? A resposta, como quase tudo no Brasil de hoje, depende muito de quem está olhando.



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