No meio do brilho da Marquês de Sapucaí, a Acadêmicos de Niterói resolveu cutucar uma ferida política que anda bem aberta no Brasil atual. A escola, que neste domingo (15) levou para a avenida um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acabou chamando atenção mesmo foi por uma ala específica, batizada de “Neoconservadores em conserva”. O nome já entrega o tom: ironia, deboche e uma boa dose de provocação.
A tal ala surgiu na avenida com fantasias em formato de lata de conserva. Isso mesmo, lata. Redonda, colorida, chamativa. A ideia, segundo a própria escola explicou, era fazer uma sátira aos chamados “neoconservadores”, grupo que costuma se posicionar contra Lula e defender pautas mais à direita, como privatizações e mudanças nas regras trabalhistas. Foi uma escolha que dividiu opiniões nas arquibancadas e, claro, incendiou as redes sociais poucas horas depois.
Um detalhe que não passou despercebido: a ala era a de número 22. Coincidência ou não, é o mesmo número usado nas urnas pelo Partido Liberal, sigla ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Teve gente que viu ali uma provocação direta. Outros disseram que carnaval é isso mesmo, exagero, crítica e liberdade artística. No fim das contas, cada um interpreta como quer, mas que o recado foi dado, isso foi.
Na descrição divulgada pela escola, a fantasia da lata simbolizava a chamada “família tradicional”, definida como aquela formada por homem, mulher e filhos. A crítica vinha justamente aí: a ideia de algo “em conserva”, fechado, que não muda. Pode até parecer pesado, mas a avenida sempre foi palco de críticas sociais e políticas, desde os tempos mais antigos do samba.
Cada integrante da ala ainda trazia na cabeça personagens que representavam setores associados ao neoconservadorismo. Tinha fazendeiro, mulher rica, defensores da ditadura militar e também referências ao público evangélico. Era tudo bem caricato, quase teatral. Alguns acharam exagerado. Outros bateram palma. Carnaval dificilmente é consenso, e talvez nem deva ser.
De acordo com o texto da escola, esses grupos formariam uma espécie de bloco dentro do Congresso Nacional, defendendo pautas como flexibilização do porte de armas, exaltação das Forças Armadas, interesses do agronegócio e valores ligados à família tradicional. É basicamente o retrato do embate político que o Brasil vive desde pelo menos 2018, e que continua firme agora em 2026, com discussões acaloradas sobre economia, costumes e papel do Estado.
Confesso que, vendo as imagens, fiquei com aquela sensação de que o carnaval tem sido cada vez mais um espaço de disputa narrativa. Não é de hoje. Quem lembra dos desfiles polêmicos de anos anteriores sabe bem. A diferença é que hoje tudo ganha uma proporção gigantesca por causa das redes sociais. Um trecho de 15 segundos viraliza, vira corte, vira debate em grupo de família no WhatsApp e pronto: está formada a guerra de versões.

No fim, a apresentação da Acadêmicos de Niterói cumpriu o que o carnaval faz de melhor e de pior: provocou. Fez rir, fez gente se irritar, gerou discussão. Talvez esse seja o papel da arte, mesmo quando ela incomoda. Pode ter erro, pode ter exagero, pode ter até injustiça na forma como certos grupos foram retratados. Mas a avenida é isso, um espelho meio distorcido do país real. E, goste ou não, o Brasil de hoje está longe de ser uma lata fechada.