Quitéria Chagas sobre Carnaval: “O corpo fala e conta nossa história”

A Rainha do Carnaval: Quitéria Chagas e sua Trajetória Inspiradora

A uma semana do desfile na famosa Marquês de Sapucaí, o coração de Quitéria Chagas, uma mulher de 45 anos, já pulsa ao ritmo do agogô de quatro bocas, um símbolo da Sinfônica do Samba. Com 26 anos de experiência no Carnaval, a rainha de bateria do Império Serrano não é apenas responsável por defender o pavilhão da Serrinha; ela representa a luta contra barreiras que começaram quando ainda era uma passista e questionava a ausência de mulheres negras em postos de destaque nas agremiações.

Uma História de Desafios e Superações

Quitéria se destaca não só pela sua presença marcante, mas também pela sua trajetória de resistência e luta. Ela afirma que, ao longo dos anos, percebeu que muitas vezes as mulheres retintas, assim como ela, eram deixadas de lado em favor de outras que não representavam a verdadeira diversidade do Carnaval. Em uma entrevista à CNN Brasil, ela compartilha sobre sua preparação física e emocional para o desfile deste ano, além de uma mudança em sua fantasia a pedido da renomada escritora Conceição Evaristo, que será o enredo da escola em 2026.

A Influência de Conceição Evaristo

O desfile deste ano promete ser diferente, trazendo uma carga espiritual e literária em homenagem a Conceição Evaristo, uma das maiores vozes da literatura brasileira contemporânea. Quitéria conta que a conexão com a escritora foi tão forte que levou a uma mudança inesperada em sua fantasia, exigindo que ela representasse a entidade de Evaristo.

“A dona Conceição fez uma exigência para a escola: tive que mudar a minha fantasia há apenas duas semanas. Ela queria que eu representasse a entidade dela”, revela Quitéria. Ela reconhece que essa mudança trouxe não apenas uma pressão, mas também uma honra imensa de carregar essa energia na bateria.

Raízes e Ancestralidade

Para Quitéria, Conceição Evaristo simboliza a imortalidade da mulher preta e a conexão com as raízes do Império. Ela destaca a importância de figuras como Dona Ivone Lara e Tia Eulália, que abriram caminhos para as mulheres negras no Carnaval. “Nossas lutas se espelham. Dona Ivone sofreu demais por ser uma mulher preta letrada em sua época. A Conceição traz agora essa vontade da comunidade de mergulhar na leitura e na própria história”, diz.

Preparação: Foco na Performance e na Fé

Quitéria Chagas não se deixa levar por padrões de beleza impostos. Ela fala sobre como se libertou das expectativas externas e adotou uma rotina de atleta, focando na performance e na prevenção de lesões. “No dia do desfile, meu foco é a concentração. Tenho pânico de atrasos”, brinca. Além disso, a fé é um pilar fundamental em sua vida. “Não piso na passarela sem o amparo de minhas crenças. Tenho a minha reza com Deus e minhas entidades”, afirma.

A Luta Contra a Exclusão no Carnaval

Chagas também traz à tona questões sensíveis sobre o Carnaval, lembrando que os anos 90 foram marcados pela exclusão das mulheres negras. Ela questiona: “Por que tínhamos que ensinar mulheres brancas e ricas a sambar se nós não podíamos estar ali?” A artista relata que mesmo com seu sucesso, o mercado ainda resiste em valorizar as artistas do samba durante o ano inteiro.

Um Ato Político e Cultural

Hoje, Quitéria encara o Carnaval como um ato político. Entre as dificuldades pessoais, incluindo a perda recente do marido e a maternidade, ela encontra no terreiro do Império Serrano seu eixo de equilíbrio. Ao ser interrogada sobre o que ainda a faz sentir aquele frio na barriga após tantas décadas, ela responde: “É a vibração da ancestralidade. É a batida da Sinfônica, o toque do agogô. É mágico”, conclui.

Conclusão

Quitéria Chagas é mais do que uma rainha de bateria; ela é um símbolo de resistência, ancestralidade e luta por espaço e reconhecimento. Sua história nos ensina que o Carnaval é muito mais do que uma festa; é uma celebração da cultura, da identidade e da luta por igualdade. Ao refletirmos sobre sua trajetória, somos convidados a repensar os papéis que ocupamos e a importância de dar voz à diversidade.



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