O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu exonerar o advogado Luis Henrique Pichini Santos do cargo de assessor especial no Gabinete Pessoal da Presidência da República. A saída foi oficializada nesta quarta-feira, 4 de fevereiro, por meio de publicação no Diário Oficial da União, como costuma acontecer nesses casos. Apesar de não ter vindo acompanhada de maiores explicações, a decisão chamou atenção nos bastidores de Brasília.
Pichini não era um nome qualquer dentro do entorno do presidente. Ele ganhou notoriedade nacional ao integrar a equipe de defesa de Lula durante os processos da Operação Lava Jato, um dos capítulos mais turbulentos da política brasileira nos últimos anos. Formado em Direito em 2017, o advogado construiu sua trajetória profissional no escritório de Cristiano Zanin, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal e figura central na estratégia jurídica que levou à anulação das condenações do petista.
Durante o período em que atuou nos processos, Pichini participou de audiências importantes em Curitiba, epicentro da Lava Jato, quando o então juiz Sergio Moro conduzia os julgamentos. Era um momento de forte tensão política e jurídica no país, com o Judiciário no centro do debate público e a opinião da população bastante dividida.
Nas redes sociais, o agora ex-assessor nunca fez questão de esconder sua proximidade com Lula. Pelo contrário. Publicava fotos, comentários e mensagens de apoio ao presidente, além de críticas duras aos adversários políticos. Sergio Moro, por exemplo, foi um dos seus principais alvos. Em postagens antigas, Pichini chegou a chamá-lo de “patético” e “incompetente”, palavras que repercutiram bastante à época. Ele também foi um dos advogados que assinaram a ação popular que tornou Moro réu na Justiça do Distrito Federal, episódio que aumentou ainda mais a animosidade entre os dois lados.
Com 34 anos, Pichini recebia um salário mensal de R$ 17,3 mil no cargo que ocupava no Palácio do Planalto. Embora não fosse um rosto conhecido do grande público, sua presença no Gabinete Pessoal simbolizava, para muitos, a confiança de Lula em nomes que estiveram ao seu lado nos momentos mais difíceis, especialmente durante o período em que ficou preso.
E é impossível falar dessa exoneração sem relembrar o processo da Lava Jato envolvendo Lula, que ainda hoje provoca debates acalorados. O ex-presidente ficou preso por 580 dias, entre 2018 e 2019, após condenações por corrupção e lavagem de dinheiro nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia. Na época, a prisão teve impacto direto nas eleições e mudou o rumo da política nacional.
Em 2021, porém, o Supremo Tribunal Federal anulou todas as condenações. A Corte entendeu que Sergio Moro atuou de forma parcial e que a Vara de Curitiba não tinha competência legal para julgar os casos. Com isso, os processos acabaram sendo arquivados, seja pela nulidade das decisões ou pela prescrição dos prazos. Do ponto de vista jurídico, Lula recuperou a presunção de inocência, já que as condenações foram consideradas inválidas.
No campo político, no entanto, a história é outra. Para os apoiadores de Lula, a anulação das condenações confirmou aquilo que eles sempre defenderam: que o ex-presidente foi vítima de perseguição judicial. Já os críticos, como o ex-procurador Deltan Dallagnol, insistem que as acusações nunca foram analisadas no mérito, apenas anuladas por falhas processuais, sem uma declaração formal de inocência.
A saída de Pichini do governo acontece nesse cenário ainda marcado por feridas abertas, disputas narrativas e muita polarização. Resta saber se a exoneração é apenas um ajuste interno ou se sinaliza mudanças mais profundas no círculo próximo ao presidente. Em Brasília, como sempre, nada acontece por acaso.