Arrecadação recorde: Há mesmo o que comemorar?

Crescimento da Arrecadação: Boas Notícias ou Ilusão Fiscal?

Quando se escuta que a arrecadação do governo aumentou devido a uma economia mais robusta, à primeira vista, parece uma ótima notícia. Afinal, crescimento econômico geralmente traz consigo uma série de benefícios, não é mesmo? No entanto, ao analisarmos mais de perto, percebemos que essa situação pode não ser tão positiva assim. Em 2025, a receita recorde que o governo conseguiu atingir pode, na verdade, não ser suficiente para tirar a política fiscal da zona de risco em que se encontra.

O Que Está Acontecendo com a Arrecadação?

A receita alcançada em 2025, totalizando impressionantes R$ 2,887 trilhões, foi impulsionada, segundo o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, pelo aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e pela atividade econômica aquecida. Isso não chega a ser uma grande surpresa, pois o crescimento que o Brasil tem vivido nos últimos tempos vem, em grande parte, dos setores que são altamente tributados, como o consumo e as importações.

Além disso, o mercado de trabalho, que também enfrenta uma carga tributária significativa, continua a se mostrar aquecido. Esse conjunto de fatores é o que economistas costumam referir como a elasticidade da arrecadação em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), que atualmente está acima de um. Para colocar de forma simples, isso significa que a arrecadação tende a crescer mais rapidamente do que a economia. Enquanto o PIB avançou cerca de 2,2% em 2025, a arrecadação subiu 3,74% em termos reais.

Desafios à Vista

Entretanto, um alerta importante vem de Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional e atual sócio da Oriz Partners. Ele destaca que essa elasticidade, embora pareça benéfica, funciona em ambas as direções. Ou seja, quando o crescimento desacelera, a arrecadação também tende a cair de maneira ainda mais acentuada. E é exatamente isso que o mercado está projetando para 2026.

Esse não é um conceito abstrato ou teórico. Um exemplo claro ocorreu em 2015, quando o Brasil enfrentou uma recessão severa que pegou o governo despreparado. A meta fiscal não foi cumprida, resultando na saída do então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, um episódio que permanece na memória recente do país.

O Que Esperar para o Futuro?

Atualmente, a arrecadação ainda se beneficia da atividade econômica forte. Além disso, um ambiente financeiro mais favorável, caracterizado pela entrada de capital estrangeiro, alta nas bolsas de valores e uma queda no valor do dólar, pode oferecer um fôlego extra no curto prazo. Essa combinação poderia representar uma janela rara para que o governo avançasse, mesmo que modestamente, em direção a um superávit fiscal.

No entanto, as perspectivas para o futuro não são tão animadoras. O que se projeta é um novo déficit primário, junto com um aumento contínuo dos gastos públicos. A arrecadação recorde pode ser um alívio temporário, mas, sozinha, não resolve os problemas estruturais que o país enfrenta em sua política fiscal.

Conclusão

Portanto, ao celebrarmos a arrecadação recorde do governo em 2025, é essencial manter um olhar crítico sobre a situação fiscal do país. O crescimento da arrecadação pode ser um sinal de uma economia em recuperação, mas também deve servir como um alerta sobre os desafios que estão por vir. O que realmente importa é como esse dinheiro será usado e se o governo estará preparado para enfrentar os desafios econômicos que se avizinham. A discussão sobre a sustentabilidade da política fiscal e o papel dela na economia do Brasil continua a ser uma das questões mais relevantes do nosso tempo.



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