Globo faz Bonner passar por vexame às vésperas da despedida do ‘Jornal Nacional’

Perto de se despedir do “Jornal Nacional” depois de quase quatro décadas de carreira, William Bonner acabou sendo jogado no centro de uma polêmica que poderia ter sido facilmente evitada. Em vez de blindar o âncora de qualquer desgaste a poucos dias de sua saída, a Globo acabou o expondo a uma enxurrada de críticas — e olha, algumas bem justificadas — vindas de colegas de profissão e de muita gente nas redes sociais.

Tudo começou durante o evento Upfront 2026, quando a emissora decidiu fazer uma piadinha debochada sobre a audiência da Fórmula 1, que atualmente é transmitida pela Band. A brincadeira, que parecia inofensiva no roteiro, caiu como uma bomba na internet. Bastou o vídeo circular para choverem comentários negativos, manchetes azedas na imprensa e até reações indignadas de jornalistas da concorrência — entre eles, Neto e Téo José, que não deixaram barato.

O mais curioso de tudo é que a Band tem um papel fundamental na história de Bonner. Foi lá, nos anos 1980, que ele começou sua trajetória na televisão, ainda sem o registro profissional para aparecer no vídeo. A passagem pelo canal do Morumbi deu ao então jovem repórter a visibilidade que o levaria à Globo — e ao posto mais prestigiado do telejornalismo brasileiro.

A ironia é que o roteirista responsável pela tal piada talvez nem soubesse dessa conexão. E, pior, ignorou o fato de que as famílias Marinho (da Globo) e Saad (da Band) sempre mantiveram uma relação de respeito e cordialidade no meio empresarial. Ou seja, cutucar a Band publicamente não apenas foi deselegante, como também desnecessário.

Essa confusão toda acabou ofuscando o que deveria ser um momento de celebração: a despedida de Bonner após 39 anos de casa. O jornalista não enfrentava uma onda de críticas tão intensa desde os ataques que sofreu de grupos bolsonaristas durante a pandemia. Só que, desta vez, os golpes vieram de dentro do próprio mercado e do público que sempre o acompanhou com admiração.

É claro que a Globo tem o direito de se orgulhar dos números que conquista. A emissora continua liderando o Ibope com folga e merece reconhecimento pelo trabalho. Mas, ao tentar afirmar essa superioridade às custas de outras emissoras — especialmente a Band, que sempre foi tratada como uma “coirmã” —, a empresa acabou passando uma imagem de arrogância e falta de esportividade.

Em vez de reforçar o prestígio da marca e valorizar o talento de seus profissionais, a piada mal colocada teve o efeito contrário: provocou antipatia e deixou um gosto amargo no público. Bastava um toque de sensibilidade para evitar que o principal rosto do “JN” se tornasse o bode expiatório de uma estratégia publicitária mal planejada.

O momento pedia aplausos, não ironias. Bonner está se despedindo do telejornal mais importante do país, responsável por marcar gerações e registrar os episódios mais marcantes da história recente do Brasil — da queda de presidentes às crises da pandemia, passando pelas eleições turbulentas e pelos escândalos de Brasília.

Ao transformar essa despedida em polêmica, a Globo desperdiça a chance de homenagear um profissional que foi símbolo de credibilidade e sobriedade por quase quatro décadas. No fim das contas, quem perde não é só Bonner, mas a própria emissora, que poderia ter encerrado esse ciclo com classe e gratidão — em vez de com uma piada de gosto duvidoso que ninguém riu.



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