Ela desistiu do chamado que um dia acreditou ser o propósito da sua vida. Deixou a carreira, perdeu o rumo e hoje, em meio a um turbilhão de lembranças, vive como indigente, dormindo ao relento numa praça de Aparecida de Goiânia. O nome dela é Fernanda Oliver, e quem já a ouviu cantar dificilmente esquece a voz doce e firme que um dia ecoou nos púlpitos de igrejas evangélicas e nos vídeos do YouTube.
A história de Fernanda voltou à tona depois que o Jornal PACity publicou uma reportagem mostrando a situação de uma mulher vivendo sozinha, em condições precárias, no Parque Trindade. A imagem chocou os moradores da região e despertou a curiosidade de quem achava que já a tinha visto em algum lugar. E não demorou muito pra verdade aparecer: a mulher da praça era, na verdade, a ex-cantora gospel que, há alguns anos, frequentava programas religiosos e até chegou a se apresentar em eventos de igrejas conhecidas.
Segundo informações obtidas pela reportagem, Fernanda enfrenta sérios problemas de saúde mental. Uma pessoa próxima, que preferiu não se identificar, contou que a família não tem dado o apoio necessário nesse momento delicado. Fernanda é mãe de três filhos — um mora no Distrito Federal, outro em Goiânia, e a filha vive no Pará. Nenhum deles, no entanto, conseguiu até agora trazê-la de volta pra casa ou para um tratamento adequado.
O contraste entre o passado e o presente é brutal. Fernanda, que antes cantava sobre esperança e fé, hoje se abriga debaixo de uma árvore, tentando se proteger do frio e da chuva. Alguns moradores da região dizem que ela fala sozinha às vezes, outras, fica quieta, olhando pro nada, como se procurasse respostas que não vêm. Muitos tentam ajudar — levam comida, cobertores, um copo d’água —, mas o que falta de verdade é um acolhimento real, humano e duradouro.
De acordo com a apuração, ela já chegou a ser internada em uma clínica psiquiátrica, mas acabou voltando pras ruas. A cada tentativa de ajuda, parece que o sistema público esbarra na própria burocracia. É aquela velha história que a gente vê se repetir: promessas de reinserção social que não saem do papel. E o tempo vai passando, a saúde mental vai piorando, e as pessoas vão esquecendo.
O repórter Victor Gabler, que acompanhou o caso de perto, destacou em sua matéria que o drama de Fernanda não é um caso isolado. Segundo ele, há cada vez mais pessoas com transtornos mentais vivendo em situação de rua, sem acompanhamento, sem medicamentos e, principalmente, sem políticas públicas eficazes. E é impossível não lembrar das discussões recentes sobre a crise da saúde mental no Brasil, que cresceram ainda mais depois da pandemia e das mudanças econômicas dos últimos anos.
Enquanto isso, Fernanda segue ali, na mesma praça, dormindo sob a mesma árvore, com o olhar perdido entre a fé que um dia a moveu e a solidão que hoje a consome. Às vezes, alguém passa e reconhece: “Você não é aquela cantora?”. Ela sorri, meio tímida, meio confusa, e responde qualquer coisa que o vento leva.
Ninguém sabe ao certo se ela ainda canta. Mas quem já a ouviu garante que, mesmo agora, se ela abrir a boca, ainda tem melodia na voz. Uma voz que pede socorro — e talvez esperança — num país onde histórias como a dela são contadas, lamentadas e depois esquecidas até a próxima manchete.