Vale Tudo: Freitas entrega Marco Aurélio para Odete Roitman

Na novela Vale Tudo, a gente percebe logo de cara uma verdade que serve pra vida real também: todo mundo, sem exceção, tem um limite. Pode demorar, mas chega a hora em que até quem sempre abaixou a cabeça resolve reagir. E é justamente isso que vai acontecer com Freitas (Luis Lobianco), o braço direito fiel — ou pelo menos parecia ser — de Marco Aurélio (Alexandre Nero). Depois de anos engolindo sapo, piadinha e humilhação de todo tipo, ele finalmente vai decidir virar o jogo.

E olha que a jogada não é nada pequena. Freitas vai escolher bater de frente com o chefe da forma mais perigosa possível: entregando os podres dele justamente pra Odete Roitman (Debora Bloch), a empresária mais temida da TCA e talvez de toda a trama. É como se alguém resolvesse denunciar um figurão do Congresso hoje em dia: não dá pra prever no que vai dar, mas a confusão vem forte.

A cena acontece quando a empresa já está praticamente vazia, depois do expediente. Enquanto os corredores ficam em silêncio, Freitas toma coragem e procura Odete no escritório dela. O diálogo é direto e cheio de tensão:

— Eu vim fazer uma delação premiada, dona Odete — dispara ele. — Porque eu tô sendo humilhado, a senhora tá sendo roubada e eu só quero comprar a casa da minha mãezinha.

A empresária, que não costuma se surpreender com nada, dessa vez fica até sem reação por alguns segundos. E solta uma daquelas respostas com veneno:

— Bom, que você é humilhado todo mundo sabe. Eu até achei que você gostasse!

O clima entre eles mistura ironia e verdade. Freitas, encorajado, resolve abrir a caixa de marimbondo. Conta histórias cabeludas de Marco Aurélio, muitas que Odete já suspeitava, mas nunca teve certeza. Entre elas, um detalhe que ainda machuca: foi o próprio Marco Aurélio quem torceu pra que ela não saísse viva do hospital quando ficou internada. Além disso, o assistente lembra do escândalo da lista que caiu na imprensa com os nomes dos homens ligados a Odete — um golpe baixo que abalou a imagem dela, mas que também mostrou como ela sabia se reerguer rápido, quase como certos políticos brasileiros que, mesmo depois de delações e manchetes negativas, seguem firmes em suas carreiras.

A cada revelação, Odete vai juntando as peças. Fria como sempre, ela não perde a pose, mas já começa a pensar estrategicamente em como usar tudo aquilo contra Marco Aurélio. No fim, dá a cartada que muda completamente a relação dela com Freitas:

— Quero que você organize todas as provas que tiver, Freitas. E pode fechar a compra da casa da sua mãe. Ninguém se arrepende de ficar do meu lado.

Essa fala não é só uma promessa, mas um aviso. Odete deixa claro que, ao se alinhar com ela, Freitas entra num jogo muito maior do que imaginava. Agora ele não é mais apenas o funcionário humilhado, e sim uma peça importante num tabuleiro de guerra corporativa.

Essa virada do personagem tem tudo pra mexer com a trama e até com o público. Quem nunca conheceu um “Freitas” da vida real? Aquele cara sempre apagado, que aguenta calado as ordens absurdas do chefe, mas que, um dia, cansa. Em tempos atuais, em que muito se fala sobre assédio moral no trabalho, burnout e a importância da saúde mental, a atitude de Freitas acaba soando como uma metáfora potente: tem hora que basta, não dá mais pra ficar quieto.

No fim das contas, Vale Tudo continua mostrando porque é considerada uma das novelas mais atemporais da TV brasileira. Os conflitos de poder, a corrupção, as jogadas de interesse — tudo isso continua atual, quase como se tivesse sido escrito ontem. E o desabafo de Freitas é só mais uma prova de que, cedo ou tarde, todo mundo decide reagir quando o limite é ultrapassado.



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