Um nome que atravessou gerações da TV e da dublagem brasileira foi Pietro Mário. Quem acompanhou a novela Terra Nostra talvez se lembre dele como o personagem Benetti, mas sua história vai bem além daquele papel. O ator, que nos deixou em 2020 aos 81 anos, carregava uma voz tão marcante que acabou se tornando parte da memória afetiva de milhões de pessoas. Não por acaso, deu vida em português a figuras que hoje fazem parte do imaginário mundial, como o Mestre Yoda da saga Star Wars.
Do norte da Itália ao Brasil
Nascido em 1939, em Omegna, uma pequena cidade italiana, Pietro Mário Francesco Bogianchini chegou ao Brasil ainda criança, no final da Segunda Guerra. Como tantos imigrantes, sua família buscava recomeçar a vida em terras brasileiras. Aqui, ele encontrou seu destino nos palcos e nas câmeras. Foram mais de 20 novelas só na TV Globo, sem contar o trabalho como dublador e algumas participações importantes no cinema.
Na década de 1960, Pietro já era conhecido do público infantil ao vestir a capa do Capitão Furacão (1965 a 1970), programa que marcou época na televisão brasileira. Pouco depois, viveu Venâncio na primeira versão de Irmãos Coragem (1970), uma trama de enorme sucesso da época. E não parou por aí: ele também passou pelas pioneiras TV Tupi e Rede Manchete, atuando em produções que hoje são lembradas como peças históricas da dramaturgia, caso de Jerônimo, o Herói do Sertão e Mania de Querer.
Na emissora da família Marinho, sua trajetória foi extensa e cheia de personagens de peso. Ele esteve em O Casarão (1976), Gina (1978), Esperança (2002), Chocolate com Pimenta (2003), Alma Gêmea (2005), Pé na Jaca (2007), Duas Caras (2008), A Favorita (2008) e em Êta Mundo Bom! (2016). Já quase no fim da carreira, fez uma participação especial em Deus Salve o Rei (2018), novela de época que tentou resgatar o clima medieval e conquistou parte do público jovem.
Se na televisão Pietro era um rosto conhecido, na dublagem ele se tornou praticamente imortal. Foi ele quem deu vida a personagens como o sábio Rafiki em O Rei Leão, o eterno Capitão Caverna dos desenhos da Hanna-Barbera e até mesmo o campeão Zilean no jogo online League of Legends, que até hoje é febre no mundo dos e-sports. Talvez muitos jovens brasileiros, que nunca o viram em novelas antigas, acabaram conhecendo sua voz enquanto jogavam no computador ou assistiam a uma animação da Disney.
No cinema, acumulou 19 participações, indo de produções leves como Os Machões (1972) até obras mais recentes como Chico Xavier (2010). Seus últimos trabalhos na telona foram em 2020, com destaque para A Gruta, que acabou sendo seu derradeiro papel. Também não deixou de marcar presença no streaming, participando da série O Mecanismo, da Netflix, e em um episódio de Magnífica 70, produção nacional da HBO.
O ano de 2020 foi trágico para milhares de famílias brasileiras, e Pietro Mário foi mais uma das vítimas do período sombrio da pandemia. Ele chegou a contrair COVID-19, conseguiu se recuperar da doença, mas logo depois sofreu complicações sérias. Foram AVCs sucessivos e, no final de agosto, não resistiu a uma parada cardíaca. A notícia de sua morte repercutiu nas redes sociais, onde fãs, colegas de profissão e até jogadores de League of Legends deixaram mensagens de pesar e lembranças de sua voz única.
Mais de três anos depois de sua partida, Pietro continua presente nas telas, nas vozes que ecoam nos filmes reprisados e até mesmo nos memes de Yoda que circulam pela internet. É curioso pensar que alguém que começou na TV em preto e branco acabou atravessando para a era do streaming e dos games online. Sua carreira é um retrato da própria evolução da mídia no Brasil.

No fim, Pietro Mário não foi apenas um ator ou dublador. Foi, antes de tudo, um contador de histórias — com rosto, voz e emoção. E é dessa forma que muita gente vai continuar lembrando dele.