Na quinta-feira, 28 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu dar um passo firme na disputa comercial com os Estados Unidos. O mandatário autorizou que o Itamaraty recorresse à Câmara de Comércio Exterior (Camex) para abrir consultas, investigações e até possíveis sanções baseadas na chamada Lei da Reciprocidade Econômica. O motivo? O tarifaço de 50% imposto pelos norte-americanos sobre produtos brasileiros, medida que já vinha causando dor de cabeça em diversos setores da nossa economia.
Segundo informações vindas do próprio governo, o acionamento da Camex já foi feito. Agora, o processo segue seu curso e a expectativa é de que o Itamaraty, assim que receber a confirmação formal da Camex, comunique imediatamente a decisão ao governo de Donald Trump. Isso pode acontecer em questão de dias ou até mesmo de horas, o que coloca a diplomacia brasileira num xadrez complicado, já que tudo ocorre justamente na mesma semana em que o Supremo Tribunal Federal (STF) se prepara para analisar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe de Estado.
O cenário, convenhamos, é dos mais turbulentos. De um lado, o Planalto busca mostrar firmeza contra medidas que prejudicam a competitividade da indústria nacional. Do outro, o governo Lula sabe que bater de frente com os EUA, ainda mais sob a gestão Trump, pode abrir um conflito comercial de grandes proporções. Vale lembrar que esse tipo de briga não é novidade no comércio internacional — a própria União Europeia já enfrentou embates semelhantes com Washington, especialmente na área do aço e do alumínio.
No caso brasileiro, o tarifaço afeta diretamente setores estratégicos como siderurgia, agronegócio e até produtos manufaturados que, com esse aumento brutal de taxas, perdem espaço no mercado americano. Empresários e associações comerciais já vinham pressionando o governo federal para adotar medidas duras, sob risco de ver a economia nacional patinar ainda mais num momento em que o PIB cresce devagar e a inflação dá sinais de resistência.
Curioso é notar que a decisão de Lula chega também num momento em que o país tenta manter relações diplomáticas equilibradas com várias potências. O Brasil está no G20, participa ativamente do BRICS — agora ampliado com novos membros — e busca reforçar sua imagem de player global. Se recuar diante do tarifaço, passa a ideia de fraqueza; se endurecer demais, pode enfrentar represálias que pesariam no bolso do consumidor brasileiro, afinal quem paga a conta desses embates quase sempre é o cidadão comum, com preços mais altos e menos opções de mercado.
Outro detalhe que chama atenção é o timing político. A proximidade da comunicação oficial ao governo Trump com o julgamento de Bolsonaro no STF não deixa de levantar especulações. Alguns analistas dizem que Lula aproveita o momento para marcar posição política e internacional ao mesmo tempo, mostrando firmeza interna e externa. Outros, mais críticos, enxergam risco de mistura entre diplomacia e estratégia eleitoral, algo que historicamente já trouxe problemas para governos anteriores.
O fato é que, goste-se ou não, o Brasil precisará escolher muito bem suas cartas nesse tabuleiro. A Lei da Reciprocidade Econômica, embora exista, é um instrumento pesado e que raramente é utilizado na prática. Aplicá-la contra os EUA pode significar abrir uma guerra tarifária, algo que mexe com investidores, câmbio e até humor do mercado financeiro, que já anda instável com as últimas decisões do Banco Central americano sobre juros.
Na prática, o que vem pela frente é uma queda de braço que ultrapassa a esfera técnica. Estamos falando de política, diplomacia, economia e até de percepção pública. Resta saber se Lula vai conseguir equilibrar todos esses pratos sem deixar nenhum cair, numa semana que promete ser das mais tensas tanto em Brasília