O jornal O Globo resolveu, nesta terça-feira (12), mirar diretamente no presidente Luiz Inácio Lula da Silva por causa de uma pauta que ele vem levantando com certa insistência: a ideia de que o comércio internacional não precisa depender exclusivamente do dólar. O editorial, publicado no site do veículo, deixa claro um posicionamento que soa mais como defesa da supremacia da moeda norte-americana — e, de quebra, de toda a estrutura de poder que vem junto com ela — do que como um debate aberto sobre alternativas econômicas.
Segundo o texto do jornal, Lula estaria “enganado” ao sugerir que o grupo Brics — formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — busque formas de negociar sem passar pelo dólar. A publicação chega a afirmar que o presidente demonstra “desconhecimento do funcionamento da economia global” e, para dar peso à crítica, cita o professor Vitelio Brustolin, ligado à Universidade Federal Fluminense e também a Harvard. Ele teria apontado que nem mesmo Dilma Rousseff, hoje à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), compraria totalmente a ideia de aposentar o dólar como moeda de referência no comércio internacional.
O editorial lembra que Lula vem batendo nessa tecla desde a última cúpula do Brics, realizada no Rio de Janeiro em julho deste ano. E, num tom de ironia, diz que o único resultado prático até agora teria sido “enfurecer” o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Isso mesmo: Trump, que voltou ao poder em janeiro, após a eleição acirrada contra Joe Biden, estaria nada satisfeito com a fala de Lula. O jornal reforça a tese de que o dólar é “incontornável” nas trocas internacionais, citando números: 60% das reservas mundiais ainda estão nessa moeda e ela está presente em nove de cada dez transações feitas no planeta.
Apesar disso, O Globo admite que a presença do dólar vem caindo desde 2015 e que eventos como a guerra na Ucrânia e as sanções unilaterais de Washington têm feito países como China e Rússia buscarem alternativas. Mas, segundo o editorial, essa não seria uma “agenda brasileira” e não justificaria tanto empenho diplomático. Nesse ponto, o texto chega a minimizar até mesmo as conversas do Brasil com a Argentina sobre moedas locais para facilitar o comércio entre os dois países.
A linha editorial deixa transparecer um incômodo com qualquer possibilidade de o Brasil questionar o modelo tradicional de inserção econômica internacional, onde seguimos dependentes não só da moeda, mas também da política externa dos Estados Unidos. É um recado claro: mexer nesse vespeiro é quase um tabu. Ao atacar Lula, o jornal reafirma uma postura alinhada ao chamado status quo do sistema financeiro global — um sistema que concentra poder em poucas economias e mantém países emergentes sob risco constante de oscilações cambiais e sanções econômicas.
Esse tipo de posicionamento contrasta com debates que têm ganhado força nos últimos anos sobre soberania econômica. Para muita gente, diversificar moedas no comércio não é só viável, mas estratégico. Significa reduzir riscos, ampliar autonomia e evitar que decisões tomadas em Washington determinem o destino de economias inteiras. E, convenhamos, não é de hoje que o Brasil sofre os impactos de crises externas que começam bem longe daqui.
Chamar essa pauta de “inexplicável” é fechar os olhos para um movimento que vem acontecendo em várias partes do mundo. É também ignorar que, em tempos de instabilidade geopolítica e avanço de blocos como Brics+, discutir alternativas monetárias não é só ideologia: é precaução. Mas, pelo visto, para o O Globo, o mais seguro é seguir o velho caminho — mesmo que ele mantenha o Brasil, e outros países, num papel secundário na economia global.