Apoio de Trump a Bolsonaro pode ajudar Lula em 2026; entenda

Desde que Donald Trump chegou à presidência dos Estados Unidos, Jair Bolsonaro parecia viver na expectativa de um gesto vindo de Washington. O ex-capitão do Exército, hoje enrolado até o pescoço com a Justiça brasileira, sempre acreditou que só um empurrão vindo da Casa Branca poderia livrá-lo da cadeia. Era como se estivesse em alto-mar, segurando num pedaço de madeira, esperando que um helicóptero americano jogasse uma escada pra ele subir.

Depois de um longo silêncio, Trump finalmente quebrou a mudez – ou melhor, soltou um tweet. Nele, tratou Bolsonaro como uma espécie de mártir político. Chamou o ex-presidente brasileiro de “inocente” e vítima de uma “caça às bruxas”. Segundo ele, o único “crime” de Bolsonaro foi lutar pelo povo. Um clássico do trumpismo: inverter os papéis e posar de perseguido.

Lá do outro lado do continente, Bolsonaro vibrou. Compartilhou a mensagem, agradeceu, e seus seguidores fizeram festa nas redes. Mas, vamos ser realistas: esse apoio gringo dificilmente vai colar por aqui fora da bolha da extrema-direita. Bolsonaro é réu por tentativa de golpe, e a cada depoimento no STF sua situação fica mais enrolada. A corte não vai varrer os indícios debaixo do tapete só porque Trump achou o processo “injusto”.

E tem mais: politicamente, essa interferência pode sair pela culatra. Ao meter o bedelho nos assuntos internos do Brasil, Trump acabou oferecendo munição pro discurso nacionalista do presidente Lula. No encerramento da cúpula dos Brics, que aconteceu em junho em Moscou, Lula não perdeu a chance: disse que o Brasil não aceita intromissão externa, nem tutela de potências estrangeiras. Pronto, ganhou um discurso de soberania que agrada tanto à esquerda quanto a parte do centro.

Vale lembrar que esse tipo de interferência internacional costuma ser mal recebida, principalmente num país com tradição de desconfiar de gringos metidos. Em abril, por exemplo, Trump fez ameaças públicas ao Canadá, e o resultado foi um desastre pra direita de lá. Os conservadores lideravam as pesquisas com folga, mas perderam terreno quando os liberais colaram neles a pecha de “fantoche americano”.

É verdade que Lula não é exatamente um exemplo de coerência quando o assunto é se meter na política dos outros. Já falou sobre eleições nos EUA, opinou sobre a guerra na Ucrânia, e recentemente defendeu Cristina Kirchner, que enfrenta problemas judiciais sérios na Argentina. Mas uma coisa é opinar, outra é um ex-presidente dos EUA ameaçar instituições brasileiras.

Em maio, o senador Marco Rubio – ligado ao Partido Republicano – chegou a sugerir sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, caso Bolsonaro fosse condenado. E a Trump Media, empresa do ex-presidente americano, entrou com ação nos EUA contra Moraes, acusando-o de censura e abuso de poder. Isso indica que a ofensiva pode ir além da retórica.

No fim das contas, o apoio de Trump é uma faca de dois gumes. Pra base mais radical do bolsonarismo, ele é visto como um salvador. Mas pro eleitor comum, pode soar como intromissão grosseira. E, num país como o Brasil, onde a memória do colonialismo ainda dói, ninguém gosta de parecer submisso.

Se Bolsonaro esperava que Trump o salvasse, pode acabar afundando com ele. E a história já mostrou que, quando o barco começa a fazer água, nem todo gringo quer se molhar.



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