Na última quarta-feira, 5 de junho, o Brasil perdeu uma de suas mentes mais brilhantes na área da arqueologia. Niéde Guidon, aos 92 anos, nos deixou — e mesmo sem a causa da morte ter sido revelada, o impacto da notícia foi imediato, principalmente entre aqueles que conheceram de perto a trajetória dessa mulher admirável. A apresentadora Sonia Abrão, visivelmente emocionada, fez questão de prestar uma homenagem tocante à arqueóloga em suas redes sociais.
Com palavras cheias de afeto e saudade, Sonia contou que não conseguiria encerrar o dia sem dizer um último adeus à Niéde, a quem chamou de “uma das maiores do mundo” em sua área. E isso não é exagero. Guidon foi uma pioneira na valorização do patrimônio arqueológico brasileiro, em especial com suas descobertas na Serra da Capivara, no Piauí — um verdadeiro tesouro escondido no sertão nordestino.
Mas o que chamou atenção mesmo no texto de Sonia foi o tom pessoal. Ela revelou que teve o privilégio de conhecer Niéde em Paris, durante uma viagem em que se hospedou na casa da arqueóloga. Isso aconteceu porque Guidon era tia de duas amigas próximas de Sonia — uma delas, inclusive, colega de profissão da jornalista na época da Editora Abril.
“Ela me recebeu com um almoço inesquecível… lembro até hoje do cheirinho do cassoulet que ela fez com tanto carinho. Era primavera em Paris, mas a sensação era de estar numa tarde de domingo no Brasil”, escreveu a apresentadora, quase como se contasse uma história pra um amigo.
Essa lembrança simples — um almoço, algumas histórias contadas à mesa — carrega o peso simbólico de quem compartilhou não só comida, mas um pouco de sua própria história. Sonia descreveu o momento como um dos mais marcantes de sua vida, especialmente pelas conversas que teve com Niéde sobre sua luta incansável pela preservação da Serra da Capivara.
Vale lembrar que foi graças a Guidon que o mundo passou a enxergar o Brasil com outros olhos quando o assunto é arqueologia. As pinturas rupestres de mais de 12 mil anos que ela ajudou a catalogar e preservar foram fundamentais para transformar a região num polo turístico e científico respeitado internacionalmente. Isso sem falar na batalha que ela travou contra o abandono e a falta de recursos para o parque, tema que ela abordava com uma paixão que beirava o desespero, mas nunca a rendição.
“Assim como as pinturas nas pedras da serra, Niéde vai ficar gravada na história por muitos e muitos anos”, escreveu Sonia, encerrando sua homenagem com um “obrigada” simples, mas cheio de significado. E, sinceramente, é isso mesmo. Nem sempre as maiores revoluções vêm acompanhadas de barulho. Às vezes, elas estão ali, gravadas em pedra, em silêncio, resistindo ao tempo — exatamente como Niéde.
Num país onde tantas figuras importantes acabam sendo esquecidas, o gesto de Sonia foi um lembrete necessário: a memória também é um ato de resistência. E lembrar de Niéde Guidon é, de certa forma, continuar o trabalho dela.
Descanse em paz, Niéde. E obrigada, mesmo.