Nos últimos dias, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem se envolvido diretamente nos bastidores da sua própria defesa no inquérito do golpe, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). E não é de agora que ele vem tentando alinhar discursos e orientações com aliados próximos. Segundo relatos, Bolsonaro tem feito ligações pessoais pra testemunhas, pedindo que reforcem alguns pontos-chave durante os depoimentos.
Na semana passada, por exemplo, o ex-presidente entrou em contato com o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que além de ex-vice-presidente da República, também é general da reserva. A conversa aconteceu antes de Mourão prestar seu depoimento ao ministro Alexandre de Moraes, um dos principais nomes à frente das investigações.
O próprio Mourão confirmou à coluna que Bolsonaro ligou pra ele. O objetivo do telefonema era pedir que o senador enfatizasse certos trechos na oitiva marcada pra sexta-feira (23 de maio). Um desses pontos seria a afirmação de que jamais teria ouvido qualquer fala de Bolsonaro sugerindo ruptura institucional ou tentativa de golpe. A ideia era afastar qualquer narrativa de que o ex-presidente teria participado, direta ou indiretamente, de uma tentativa de subverter a ordem democrática.
Durante o depoimento, Mourão também negou ter sido monitorado por militares supostamente envolvidos na tal articulação golpista. Essa alegação surgiu depois da delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, que contou detalhes sobre o que seria um plano para manter o então presidente no poder, mesmo após a derrota nas urnas.
Vale lembrar que Mourão não é o único nome da defesa. Além dele, foram indicados como testemunhas os generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Braga Netto — todos eles também réus no inquérito que apura os eventos que levaram ao 8 de janeiro e às ações anteriores. É um time de peso, composto por figuras influentes tanto no governo Bolsonaro quanto nas Forças Armadas.
Até a publicação desta matéria, Bolsonaro não respondeu aos questionamentos da coluna sobre o assunto. Como de costume, o espaço continua aberto caso o ex-presidente deseje se manifestar. O silêncio, por enquanto, tem sido a estratégia adotada, talvez pra evitar novos desgastes em meio a um cenário político e jurídico cada vez mais apertado.
O contexto atual é delicado. Em meio a debates acalorados sobre a atuação das Forças Armadas, a polarização política e as investigações que ainda seguem em ritmo acelerado, cada fala — e cada silêncio — conta muito. A tentativa de Bolsonaro de “organizar a defesa” por meio de contatos diretos pode até ser vista por alguns como uma forma legítima de se proteger, mas também levanta questionamentos éticos e jurídicos. Afinal, até onde vai o direito de defesa, e quando ele começa a interferir no curso natural das investigações?
Enquanto isso, a sociedade observa, entre escândalos e incertezas, os desdobramentos de um dos episódios mais tensos da nossa recente história democrática. Os próximos meses prometem ser movimentados, e o julgamento desses personagens centrais pode definir os rumos de futuras disputas políticas no Brasil. Fato é que a história ainda está sendo escrita — e com capítulos novos a cada semana.