A Crise da Violência na Baixada Fluminense: Um Retrato da Realidade Policial
Um novo relatório divulgado pela IDMJRacial (Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial) trouxe à luz um cenário alarmante sobre a violência policial na Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro. Os números são impressionantes e refletem uma realidade que muitas vezes passa despercebida pela sociedade. Segundo o levantamento, que abrange o período de 2020 a 2025, cerca de 75% das mortes resultantes de operações policiais estão concentradas em apenas cinco municípios da região.
Dados Alarmantes das Operações Policiais
O estudo intitulado “Operações policiais na Baixada Fluminense/RJ” revela que foram registradas 5.298 operações policiais no intervalo analisado, resultando em 282 mortes, 652 feridos, 5.783 prisões e 41 adolescentes apreendidos. O ano de 2022 se destacou como o mais intenso, com 1.486 operações, um aumento significativo de 188% em relação a 2021. Em contrapartida, os números diminuíram em 2023, 2024 e 2025, com 1.233, 1.061 e 654 operações, respectivamente.
Territórios de Maior Letalidade
Quando analisamos o impacto territorial, a cidade de Duque de Caxias se destaca como a que mais sofreu com as operações policiais, contabilizando 66 mortos e 160 feridos entre 2020 e 2025. Outros municípios como Belford Roxo, com 48 mortos, e São João de Meriti, com 41 mortos, também figuram entre os mais afetados. Nova Iguaçu e Japeri seguem a lista, trazendo à tona uma triste realidade que assola a população local.
Um ponto crucial levantado pelo relatório é a falta de acompanhamento do estado de saúde das vítimas feridas. Isso gera uma lacuna de informações, impossibilitando a análise precisa de mortes que possam ter ocorrido após as operações, complicando ainda mais o entendimento sobre as consequências dessas ações.
Letalidade das Operações Policiais
Entre todas as operações contabilizadas, a Polícia Militar foi responsável por 86% delas. Porém, o documento também indica um crescimento alarmante nas operações realizadas pela Polícia Civil, que em 2024, registrou um aumento de 614% em comparação a 2020. De 47 operações em 2020, o número saltou para 366 em 2024.
O relatório ainda destaca que, entre 2020 e 2025, a letalidade policial em operações comandadas pela Polícia Civil cresceu de forma exponencial. No ano de 2024, a corporação conduziu 336 operações, resultando em uma taxa de letalidade de 2%. Já em 2025, apesar de realizar apenas 66 operações, essa taxa disparou para 18%.
Prisão e Apreensões
Nos cinco anos analisados, as operações policiais resultaram em 5.783 prisões na Baixada Fluminense. O aumento foi significativo, passando de 359 prisões em 2020 para um pico de 1.516 em 2024. No entanto, uma queda foi registrada em 2025, com 757 prisões. Vale ressaltar que o estado do Rio de Janeiro possui a terceira maior população carcerária do Brasil, com 47 mil detentos.
Uma das iniciativas do governo para lidar com a situação na Baixada Fluminense é a Operação Barricada Zero, que visa remover barricadas na região. Entre 2020 e 2025, foram realizadas 267 ações desse tipo.
Um Olhar Crítico sobre a Violência
O relatório da IDMJRacial levanta questões importantes sobre a narrativa em torno do combate à violência. Segundo o documento, a abordagem utilizada pelo estado muitas vezes tem servido como um pretexto para uma militarização ainda maior das áreas afetadas, ao invés de buscar soluções sustentáveis e humanas. O crescimento das operações policiais é associado a um projeto que visa a valorização imobiliária da região, frequentemente às custas da população local.
Além disso, o levantamento indica que a apreensão de armas, especialmente fuzis, representou apenas 5,5% do total de apreensões, enquanto motocicletas foram os veículos mais confiscados, representando 60% do total. Carros, caminhões e vans completam a lista, mas o foco em motocicletas revela uma preocupação com a mobilidade dos criminosos e a necessidade de uma abordagem mais eficaz.
Metodologia do Estudo
Para a elaboração deste estudo, a IDMJRacial utilizou a mineração de dados, uma técnica que envolve o processamento de grandes conjuntos de informações para identificar padrões e tendências. Essa abordagem é crucial para entender a dinâmica das operações policiais, as apreensões realizadas e as consequências para a população.
Como ressaltou Kharine Gil, assistente social e pesquisadora da IDMJRacial, “os números evidenciados no relatório demonstram qual é o modus operandi do estado nos territórios favelados e periféricos”. É fundamental que a sociedade esteja atenta a esses dados e busque um diálogo construtivo sobre a segurança pública.