Gonet rompe com Moraes e defende Jair Bolsonaro; entenda

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar a PGR, vem dando sinais de que pretende atuar com mais independência em processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Nos bastidores de Brasília, essa mudança de postura já virou assunto entre integrantes do Judiciário e também da própria Procuradoria.

Quando assumiu o cargo, muita gente acreditava que Gonet seguiria uma linha parecida com a do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Porém, nas últimas semanas, algumas decisões e pareceres acabaram mostrando um caminho um pouco diferente do que era esperado.

Um dos episódios que mais chamou atenção foi o parecer favorável à aplicação imediata da chamada Lei da Dosimetria, aprovada pelo Congresso Nacional. A nova legislação altera critérios relacionados ao cálculo das penas e também à execução penal. Caso seja colocada em prática, ela pode beneficiar diversos condenados, entre eles o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A manifestação de Gonet acabou contrariando uma decisão anterior de Alexandre de Moraes. O ministro havia suspendido os efeitos da lei ainda em maio, levantando questionamentos sobre sua validade. Mesmo assim, o chefe da Procuradoria-Geral da República entendeu que a norma poderia produzir efeitos imediatamente, criando um novo ponto de divergência entre os dois.

Outro caso que reforçou essa impressão envolve a arma registrada em nome de Bolsonaro encontrada com um militar que fazia parte de sua equipe de segurança. Na ocasião, Moraes levantou a hipótese de que o episódio poderia caracterizar uma infração disciplinar suficiente para justificar até mesmo a revogação da prisão domiciliar do ex-presidente.

Paulo Gonet, no entanto, avaliou a situação de maneira diferente. Em seu parecer, afirmou que o caso não configurava falta disciplinar e, por isso, não haveria motivo para uma medida mais severa contra Bolsonaro. A posição chamou atenção justamente por destoar do entendimento defendido pelo ministro do STF.

Dentro da própria Procuradoria, integrantes da cúpula enxergam essas decisões como parte de um movimento calculado. A avaliação é de que Gonet tenta construir uma imagem mais independente e menos associada às posições de Alexandre de Moraes. Nos corredores da instituição, alguns classificam essa estratégia como uma espécie de “autocrítica incentivada”, buscando responder às críticas que vinha recebendo tanto internamente quanto no meio político.

Essa mudança também acontece em um momento delicado. A recondução de Gonet ao comando da Procuradoria, aprovada em 2025 pelo Senado, ocorreu por uma margem considerada apertada. Parlamentares ligados à oposição demonstraram resistência durante a votação, refletindo um cenário político cada vez mais dividido e uma crescente rejeição ao protagonismo de Moraes entre parte dos congressistas.

Diante desse ambiente, analistas políticos acreditam que o procurador tenta encontrar um ponto de equilíbrio. A ideia seria preservar sua credibilidade institucional sem criar atritos desnecessários com diferentes grupos políticos, principalmente em um período em que as discussões entre Judiciário, Congresso e Executivo continuam bastante intensas.

Outro detalhe que também passou a ser observado foi a condução de investigações de grande repercussão nacional. Entre elas estão o caso das joias recebidas por Bolsonaro durante seu mandato e os desdobramentos ligados à CPI da Covid. Segundo informações divulgadas, esses processos acabaram perdendo força sem um avanço significativo dentro da Procuradoria.

Há quem interprete todas essas movimentações como uma estratégia de longo prazo. Nos bastidores de Brasília, a leitura é de que Gonet procura fortalecer sua posição pensando no futuro. Isso porque uma eventual nova recondução ao cargo, prevista para 2027, dependerá novamente da aprovação do Senado, que pode ter uma composição ainda mais favorável aos partidos de direita.

Além disso, existe a expectativa de que Alexandre de Moraes assuma a presidência do Supremo Tribunal Federal nesse período. Diante desse cenário político e institucional, os recentes posicionamentos de Paulo Gonet passaram a ser vistos como parte de um esforço para manter sua autonomia, preservar sua imagem pública e ampliar seu espaço de atuação dentro das principais decisões que movimentam o país.



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